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13.12.07
Braxília e a CPMF

Ontem foi um dia cheio. Pela manhã, fui assinar o contrato para a realização do Poesília (para todos os efeitos, Braxília ainda não é o título oficial). Feito isso, hora de enfrentar fila no banco para abrir a bendita conta. Todo mundo sabe que os horários de funcionamentos de banco são os mais ingratos para quem trabalha: das 11h às 16h, restando o horário de almoço para a massa resolver suas pendências. Okêi, lá fui eu às 11h, torcendo para ser atendida logo e não chegar atrasada no serviço às 13h. Foi por pouco, muito pouco. Mas deu certo. Trabalho à tarde, ensaio de frevo à noite, jantar de confraternização com uma turma de alunos do digníssimo M. Nino Quincampoix. Cheguei em casa cansadérrima, pronta para cair na cama e sonhar bonito, mas não resisti ao espetáculo da TV Senado: votação da PEC 89/2007, vulgo “prorrogação da CPMF”. Eu e minha mãe ficamos até a madrugada assistindo e rindo pra não chorar – como não? – das criaturas que nós botamos naquela Casa. Depois de ouvir infinitas vezes o bordão “Pela ordem, Presidente!”, que já estava funcionando como música de ninar diante do meu cansaço, fui surpreendida pelo resultado: a maioria votou contra a prorrogação. Ai ai, pelo menos fui dormir feliz!

 

Agora o governo diz que começará o ano com um rombo de R$ 40 bilhões no orçamento. Ainda não se sabe se a solução será usar verbas que restaram do orçamento de 2007. Eu só sei de uma coisa: seja governo federal ou GDF, eu respiro aliviada por já ter assinado esse contrato! Nunca fiquei tão duplamente aliviada com uma notícia. Vai que decidem  recolher meu dinheirinho nessa de orçamento não gasto? Não, não e não. Eu vou finalmente rodar o filme e fechar essa gestalt, que já está mais do que na hora e tenho dito e ponto.


Posted at 12:35 pm by danyproenca
Diga lá!  

8.12.07
Presente para Nino Quincampoix #1

De onde virão as palavras que moram nos tijolos do velho cinema? Não se sabe ao certo como elas caem da tela, caminham pelo carpete até chegar ao suposto abrigo. Dizem por aí que elas costumam ficar na ponta dos pés a espiar casais. A mais baixa delas, que fugiu de um diálogo barato, se apóia no ombro da irmã sem graça, mocinha decadente de tempos idos. Enquanto Lembrança estica o pescoço para procurar a fama de outrora, dona Desmazelo aproveita a carona. Na verdade, nenhuma delas fez as pazes com o tempo. Uma não se conforma em não haver espelhos nas paredes dos tijolos. A outra, mesmo sem se ver, enxerga-se pequena e velha pela imagem de seu nome. O homem entre elas, Bravo, escala ranhuras com grande rapidez. Quem olhar bem verá que o tijolo do canto esquerdo, aquele perto da cortina, está quebrado em vários pedacinhos. Proeza de Bravo, que alimenta a esperança de um dia salvar todas as palavras presas ali dentro. O senhor Utópico, por sua vez, tenta convencer os colegas de que uma comunidade de palavras é possível, se todos os nomes de todas as coisas em todos os tijolos gritarem em uníssono ao fim da próxima sessão. Encanto está ali, quieta, vendo o filme ora pelos ombros de Lembrança, ora pelos espaços construídos por Bravo. Ninguém sabe ao certo seu rosto. Alguns lanterninhas disseram tê-la visto com sorriso acanhado de mulher. Outros, talvez perturbados pelo sono – ah, as sessões coruja -, refletiram olhos curiosos de um rapaz. Esse é seu mistério. Encanto ganha traços conforme a projeção valsa com nossas retinas.

 

*Texto pós-Balaio Café, em uma terça-feira fora dos planos, semana de calendários em suspenso.


Posted at 11:05 pm by danyproenca
Comment (1)  

9.11.07
Os Taninos Redondos*

Os Taninos Redondos são parentes distantes das Sonecas. Distância não tão grande, é preciso dizer, a ponto de herdarem o corpo levemente oval e o pequeno porte. Descendem da seleta categoria dos que não saiam da caverna. Ao contrário, preferiam assistir projeções de sombras e saltitar em mímicas, a grande diversão. Ébria é a cor dos olhos dos Taninos Redondos, o que os diferencia das retinas teimosas das Sonecas. Diz-se dos Taninos que adoram pular de almofada em almofada, embora seus contornos arrendondados favoreçam campeonatos de cambalhotas. Temos aí seu grande evento anual: enquanto as Sonecas disputam quem acorda mais cedo e os afegãos lutam bravamente para ver quem fica com a pipa azul, os Taninos Redondos dedicam-se à arte cambalhotesca. Outra atividade que lhes é cara é colorir os olhos de casais desavisados. Quando se percebe, tudo em volta caminha devagar, em suspenso. Os Taninos são travessos. As antigas corridas entre árvores deram-lhes agilidade para esconder relógios. As horas tal qual conhecemos somem e o tempo passa a ser contado em frações contínuas de enlevo. Os Taninos Redondos têm radar aguçado para vernizes. Há boatos de que se alimentam de luz. E de cumplicidades silenciadas em beijo.

*texto inspirado pela descrição cronopiana das Sonecas, por Alisson Villa


Posted at 04:52 pm by danyproenca
Diga lá!  

7.11.07
azul chuva leve

Essa metáfora eu roubei do Jornal das Pequenas Coisas, da Rita Apoena, poeta de tantas imagens lindas. Faz todo o sentido do mundo.

 

Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.


Posted at 02:38 pm by danyproenca
Diga lá!  

26.10.07
das pequenas tragicomédias cotidianas

Dois amigos librianos entram no elevador vazio, apenas com a ascensorista. Um ia pro térreo e o outro seguiria para o sétimo andar.

Libriano 1, para a ascensorista: Sobe?

Ascensorista: Tanto faz [pior resposta possível para um legítimo libriano]

Libriano 1, de pronto: Então sobe!

Libriano 2, ao mesmo tempo: Desce.

Ascensorista: Sobe ou desce???

Libriano 1, de pronto: Ah, tá, pode descer.

Libriano 2, ao mesmo tempo: Então sobe!

A ascensorista faz cara de impaciente e intimida os librianos.

Libriano 1, dando uma de decidido: Ok, tanto faz. Pode subir primeiro, é bom que ele passeia.

Os amigos em questão são daqueles tipos que não conseguem decidir para qual bar vão sair e acabam sempre indo para o mesmo lugar. Que ficam em dúvida entre um suco de caju ou um suco de umbu; sorvete de creme ou de maracujá; clube com sol ou café com chuva; cinema ou show de rock, ou isso ou aquilo. Difícil, difícil....


Posted at 02:11 pm by danyproenca
Comments (3)  

16.10.07
ciranda

E, vendo Gustavo, vi Gabriela e vi Maison Guilda e revi Zeca Baleiro. Fez click com a reflexão aí de baixo...

Mundo velho
E decadente mundo
Ainda não aprendeu
A admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro
Puro do engano
Da imperfeição...


Zeca Baleiro, em Salão de Beleza


Posted at 01:12 am by danyproenca
Diga lá!  

12.10.07
olhar e ver

Uma pessoa muito próxima de mim, e muito amada também, tem uma mania que me irrita bastante: olhar pras pessoas e, de súbito, dizer se são feias ou bonitas (na maioria das vezes que tenho presenciado, a classificação é negativa). Acabei de chamar a atenção dela pra isso: "pôxa, fulana, você diz que todo mundo é feio!". E ela se defendeu: "mas são feios mesmo, ué...vou dizer que são bonitos só pra te agradar?".

Pois. Ponto pra ela. Não, não quero que me digam que as pessoas de quem eu gosto são bonitas só pra me agradar. A questão é: existem outras variáveis. É normal olhar alguém e julgar em "feio" ou "bonito". Mas acho problemático quando esse passa a ser o primeiro e único parâmetro. Sou a favor de exercitar o olhar. Não bater o olho e já soltar uma palavra, categoria, sem nem mesmo pensar de onde ela vem, em que está balizada.

No mais, o feriado segue. Paulo Autran morreu, acabei de ver na Folha Online. Não há muito mais o que falar...so sad, so sad.


Posted at 08:22 pm by danyproenca
Diga lá!  

11.10.07
em defesa do bom senso

São quase duas horas da manhã de uma quarta-feira de outubro. Enquanto leio sobre o conceito de cultura em Raymond Williams, o silêncio da madrugada me faz prestar atenção nos barulhos. Não falo do ronco da geladeira nem do cantar dos grilos. Falo do barulho que vem do bar em frente, o Libanus. São quase duas da madrugada e as pessoas conversam num tom absurdo, o que faz com que todos os assuntos virem uma massa só de ruído e atravessem a pista até chegar à minha casa.

Não fosse só isso, a cada quinze minutos um playboy passa cantando pneu ou abre a porta do carro para que toda a quadra escute funk com ele, às duas da manhã. Não quero parecer radical, alguém que acha que as pessoas não têm o direito de se divertir e devem estar em casa às 21h, para ver Globo Repórter de bicho sem colocar a moral e os bons costumes em risco. Nada disso, muito pelo contrário. Sou 100% favorável à cerveja com os amigos. Mas as pessoas precisam ter bom senso!

Além de roubar as vagas dos moradores, neguinho volta para o carro gritando no meio da madrugada, liga som alto debaixo da janela dos outros, mija na pilastra do prédio...pô, onde anda a educação desse pessoal? São coisas básicas que mamãe ensina (pelo menos a minha ensinou, e bem): seu espaço termina onde começa o do outro. Ou: respeite para ser respeitado.

E aí o que você faz quando respeita o próximo - ou pelo menos intenta para - e só se sente desrespeitado de volta? Outro filhadaputa cantando pneu, deve achar bonito. Eu só consigo achar ridículo, deprimente mesmo. Devo ter nascido na época errada, só pode.

Já deixei o livro de lado. Só consigo pensar que é uma dessas pessoas, que começa a invadir o limite do outro em coisas simples como as descritas aqui, que sai fazendo racha por aí, aquecido com pó e whisky, até matar gente que não tinha nada a ver com a história. Nada contra o uso de tóchicos. Mas fica na sua curtindo seu barato, pô! Essas pessoas que me obrigam a ouvir música ruim às três da manhã (and it goes on) não têm a menor noção do que é ter seu espaço invadido. E, na primeira ocorrência disso, certamente não vão escrever um texto. Vão partir pra porrada mesmo, porque se acham as donas do mundo.

Isso é um desabafo diante da constatação diária de que os bem educados são vistos como bobos. Você é legal com o sujeito, trata bem, e uma semana depois ele acha que pode tentar te agarrar. Você dá seta no trânsito e tem que dirigir adivinhando quando o povo vai virar ou não. Você passa horas na fila para um esperto achar que a pressa dele vale mais do que a sua. Essas coisas todas me fazem pensar que a boa educação está em falta, uma pena. Continuo adepta da campanha Gentileza gera Gentileza. Mesmo parecendo cada vez mais um ET. Desculpem pelo texto longo e ranzinza...


Posted at 02:40 pm by danyproenca
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29.9.07
impressões sobre o fim de Paraíso Tropical

Ok, eu assumo: sou uma grandissíssima noveleira. Nos últimos anos, tenho andado um tanto negligente: tempo mais curto, narrativas não tão interessantes, bons atores cada vez mais raros. Mas a verdade é que eu cresci vendo novelas e muito do meu olhar hoje tem a ver com os arquétipos, modelos e representações que desfilaram e desfilam na telinha. O olhar de quem não é impregnado, aliás, com a indústria cultural a todo vapor?

 

Hoje resolvi chutar o balde das leituras (percebe-se, pelo teor frankfurtiano das linhas acima, que a pessoa está em algum tipo de imersão) e assistir ao último capítulo da novela. Me rendi ao quem matou Taís, eu confesso. Eu sempre achei Paraíso Tropical bem mais interessante do que suas antecessoras. Não tenho nenhuma teoria formada pra justificar, enfim. Mas a novela trouxe atores que eu adoro (Chico Diaz e Wagner Moura, por exemplo), revelou uma veia cômica da Camila Pitanga e desenterrou atores que estavam sendo pessimamente aproveitados pela Globo (vide Yoná Magalhães, que eu acho gatérrima). Nada de novo no front. Mocinhos e vilões, testes de dna trocados, perseguição pelas ruas do Rio de Janeiro, brigas, reconciliações, pais que descobrem a identidade do filho só no último capítulo e, claro, gêmeas de personalidades opostas.

 

Apesar de tanta repetição, o fim da novela me rendeu boas gargalhadas e desanuviou a sexta-feira. A prostituta biscate vivida pela Camila Pitanga (você, leitor, já deve saber que o nome dela é Bebel) arrumou um senador em Brasília, depois que todos os seus planos de se dar bem falharam. Chiquérrima, a moça voltou para contar que, agora, estava tendo “situação”. Nem mesmo o fato de depor na quem-sabe-profética CPI do Biocombustível intimidou Bebel. Pois que venham a CPI e os fotógrafos e os convites pra posar nua. “Nu artístico”, claro, ela enfatizou. Qualquer semelhança entre ficção e realidade terá sido mera coincidência.

 

Olavo, o vilão de Wagner Moura, acabou morrendo depois de confessar todas as suas ardilosidades. Antes, deu show de interpretação e conseguiu deixar o bandidinho executivo um cara bem interessante. Mais uma vez os vilões conquistaram o público, que “humanizou” as figuras até então repulsivas.

 

Quem torceu pelo casal politicamente correto Paula e Daniel (Alessandra Negrini e Fábio Assunção)? Esse é um ponto interessante para a gente refletir. Os mocinhos parecem cada vez mais figuras descoladas da realidade. São tão bondosos e tão bestas em perceber as maldades que o público acaba sentindo raiva. Os vilões, por sua vez, estão menos caricatos e mais palpáveis. São figuras em que sexo, tramóias, dinheiro e até um punhado de afeto se misturam. Podia ser o seu colega de escritório ou a madame cheia de pose que você encontrou num jantar. Podia ser, mas não é real, e é nesse jogo de espelhos que as novelas continuam prendendo a audiência ano após ano. Os índices podem estar caindo, é verdade. Mas quem muda de canal vai em busca de outra representação. Novelas da vida real e a realidade como narrativa de novela. Nessa trama, é preciso esforço redobrado para encontrar nossos múltiplos papéis. Sem pirar.


Posted at 12:23 am by danyproenca
Comment (1)  

28.9.07
das surpresas no fundo da bolsa

Achei num papelzinho perdido e achei interessante desenterrar. Não lembro em que ocasião anotei, de onde tirei a citação, nem se a autoria está correta. Mas gostei:

A loucura é sagrada. A vista, uma ilusão.

Heráclito

Rende linhas para um debate interessante, esse pensamento. Vou aprodundar a reflexão em outro momento. Agora, só nas leituras mestradísticas mesmo.


Posted at 02:11 pm by danyproenca
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